Com a exceção do histórico Ciclo do Recife, que viu uma dezena de títulos realizados nos anos 20, Pernambuco nunca realmente produziu longas com naturalidade e freqüência, algo que faz dos 10 anos que separam “Baile Perfumado” da atual safra 2007 uma década que já deve ser vista como “de ouro”, um novo ciclo que, inclusive, não dá sinais de que terá um fim próximo. Este ano, mais três longas garantem esta continuidade: “Baixio das Bestas”, de Cláudio Assis, “Deserto Feliz”, de Caldas, e “Cartola”, de Hilton Lacerda e Lírio Ferreira.

Cena de Árido MovieÉ emblemático que nesses 10 anos, Assis, Ferreira e Caldas tenham, apenas entre eles três, sete longas-metragens feitos em Pernambuco, com equipes e, na maioria dos casos, financiamentos parcialmente pernambucanos. Em 1999, Caldas dirigiu, em parceria com Marcelo Luna, o documentário “O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas”, sobre a desigualdade social que leva uns à criminalidade, outros à expressão artística. Em 2002, Assis lançou seu primeiro longa, “Amarelo Manga”, uma crônica sobre um certo estado de espírito da cidade do Recife. Em 2005, Lírio lançou “Árido Movie”.

Seus filmes atuais não apenas se revelam semelhantes em temática e visão social, como a inclusão de Cartola também aponta para a diferença ao abordar o universo criativo e artístico do compositor carioca. Essa produção recente simboliza também a ação de um grupo de realizadores que se formou nos anos 80, não exatamente no sentido acadêmico, mas num cinema feito empiricamente em Pernambuco, através do curta-metragem em filme, e também do vídeo.

Assis, inclusive, trabalhou em “Baile Perfumado” (foi diretor de produção), assim como Hilton Lacerda, roteirista no mesmo filme e colaborador de Assis em “Amarelo Manga” e “Baixio das Bestas”, e mais uma vez de Lírio Ferreira em “Árido Movie”. No início de tudo, Baile é hoje visto como “marco zero” desta nova fase pernambucana, com um cinema reconhecido dentro e fora do país, e com média alta de acertos que fazem de Pernambuco a principal referência de produção realizada fora do eixo Rio-SP, posição que já foi ocupada pelo Rio Grande do Sul.

De 1997 (ano de lançamento nos cinemas de “Baile Perfumado”) até março de 2007, Pernambuco (ou realizadores pernambucanos) produziu nove filmes de longa-metragem, todos finalizados, número inusitado não apenas por suplantar totalmente os 18 anos infrutíferos que vieram anteriormente, mas também pelo fato de não existir ainda uma política forte de apoio ao cinema no próprio Estado.

Em Pernambuco, realizadores contam com o concurso Ary Severo-Firmo Neto de roteiros para curta-metragem (dois roteiros contemplados por ano) e com mecanismos de incentivo via Prefeitura do Recife e Funcultura (governo do Estado), que nos últimos quatro anos apoiou produções em todas as áreas artísticas, o cinema aí destacado.

Pernambuco segue também sem escolas de formação, equipamentos (câmeras, laboratórios) ou um edital específico para estimular longas-metragens. Dinheiro de fora, via editais federais ou da Petrobras, tem sido essencial para viabilizar os filmes pernambucanos deste atual ciclo. No caso de “Cartola”, os diretores são pernambucanos, mas a produção e o dinheiro vieram do Rio de Janeiro via produtora Raccord, da carioca Clélia Bessa.

Voltando à idéia de uma média alta de acertos, eles podem ser medidos, em especial, via repercussão na crítica e prêmios em festivais, prestígio artístico que produções comerciais recentes com penetração bem maior no mercado (vide a grande maioria dos produtos Globo Filmes) simplesmente não conhecem. Nesse sentido, apenas um dos filmes dessa leva recente não conseguiu, infelizmente, o tipo de exposição que tem sido observada, o docu-drama “Orange de Itamaracá”, de Franklin Jr., exibido ano passado no Cine PE – Festival do Audiovisual, no Recife.

”Baile Perfumado”, por exemplo, estreou no Festival de Brasília de 1996, de onde saiu como múltiplo vencedor daquela competição. O filme é tido hoje como um marco da chamada “Retomada”, termo usado para definir o período que viu o cinema brasileiro como um todo levantar-se ainda grogue do desmonte causado pela era Collor. Considera-se que a Retomada tenha como fim o ano de 2002.

Com a sua seleção para o Festival de Veneza de 1999, “O Rap do Pequeno Príncipe…” inaugurou o curioso acesso que os filmes de Pernambuco têm tido aos festivais internacionais mais importantes do mundo, como Cannes, Berlim, Veneza e Roterdã, fator que impressiona pelo fato de serem estes festivais os destinos mais desejados de realizadores em todo o mundo.

Cena de Amarelo Manga”Amarelo Manga” foi apresentado em Berlim – 2003, Cinema Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes, estreou em Cannes – 2005, e “Árido Movie,” de Lírio Ferreira (seu primeiro filme desde “Baile Perfumado”), em Veneza – 2005. A repercussão de “Cinema Aspirinas e Urubus” foi particularmente grande, filme que percorreu festivais importantes em todo o mundo e terminou sendo o escolhido pelo Brasil para representar o país numa hipotética indicação ao Oscar (que não se materializou). Com cerca de 120 mil espectadores, é também o filme pernambucano mais visto desta filmografia nos cinemas brasileiros, ao lado de “Amarelo Manga”, que obteve números semelhantes.

Há dois meses, mais duas participações importantes: depois de ganhar o último Festival de Brasília em novembro (“Amarelo Manga” havia conquistado o mesmo festival em 2002, seis anos depois de “Baile Perfumado”), “Baixio das Bestas” teve a sua estréia internacional na 36ª edição do Festival Internacional de Roterdã, na Holanda, de onde saiu com um dos prestigiosos prêmios Tiger de Melhor Filme, concedido para primeiras ou segundas obras em competição. O filme segue para Toulouse, França, este mês. Uma semana depois de Roterdã, “Deserto Feliz” teve sua estréia mundial no 57º Festival Internacional de Cinema de Berlim, dentro da mostra especial Panorama.

Kleber Mendonça Filho é jornalista, crítico de cinema e cineasta.