O amor aconteceu à primeira vista e em 51 anos de convívio intenso não diminuiu em nada. O romance entre o mais antigo operador cinematográfico de Salvador, Wailson Nascimento Santos, 69 anos, e a sétima arte começou ainda na pequena cidade de Uruçuca, perto de Ilhéus, onde ele iniciou-se como espectador, operador e divulgador dos filmes. O encanto prosseguiu em Salvador, onde aprendeu sozinho a trabalhar com várias máquinas e prossegue até hoje, na sua paixão pela projeção doméstica em 16mm. Seu grande sonho sempre foi ter seu próprio "cineminha", que conseguiu realizar parcialmente no quintal da sua casa, em São Cristovão, onde improvisou algumas vezes o "Cinema Paradiso" baiano, projetando para a criançada da vizinhança alguns sucessos de antigamente: velhos filmes de ação, principalmente os de caubói, seus preferidos.

Foram filmes como Flexa ligeira, Zorro e Terrível como o inferno que convenceram Wailson, com 18 anos, a trabalhar no cinema de Uruçúca, onde começou como servente, passou a ajudante de operador e, depois que recebeu todo o treinamento, a operador oficial do cinema. Como a cidade era muito pequena, cada filme passava apenas uma vez, às 19h, por isso as películas tinham que ser trazidas diariamente, "mas se fazia muito sucesso, podia ter duas sessões no mesmo dia". Com uma troca tão constante, a boa divulgação era a alma do negócio: "Eu pintava nas calçadas com tinta o nome do filme, o dia, e também fazia as tabelas: botava o nome do filme, do autor e amarrava nos postes de cada esquina", conta ele.

Aula de expert

Quando surgiu a oportunidade de vir para a capital, Wailson não pestanejou, "porque estava ganhando pouco e nem tinha carteira assinada". Em Salvador, foi barrado na primeira tentativa, "o gerente perguntou se eu sabia as quatro operações. Como eu só sabia somar e diminuir, ele disse que não servia", mas conseguiu o emprego de servente no antigo Cine Rio Vermelho. Para aprender a lidar com uma máquina mais complicada (para filme 70mm) e voltar à sua adorada sala de projeção, ele desenvolveu uma técnica infalível: "Sempre que tinha um tempinho eu subia e desenhava a máquina, como ela estava armada, o lugar de cada peça e memorizava em casa. Aí fui aprendendo". Quando o proprietário percebeu o interesse, colocou Walsion para treinar em todas as máquinas dos seis cinemas da Rede Cap e ele tornou-se um "expert".

Assistir aos filmes só no trabalho não bastava e, assim que pôde, Walsion comprou o seu próprio projetor de 16mm, ainda para filme mudo. Quando passou a trabalhar na Orient Filmes, encontrou no proprietário um outro apaixonado por filmes, que lhe emprestava a máquina sonora e os preciosos filmes em 16mm: "No São João, Natal e Semana Santa eu passava os filmes no quintal lá de casa, em São Cristóvão, Para os filhos dos vizinhos. Eu gostava muito". Há dois anos, ele conseguiu comprar, de segunda mão, uma máquina de 16mm sonora, mas o problema são as fitas: "Eu não passo mais lá em casa porque não tem fita aqui para alugar, venderam tudo pra Recife". Em casa, Walsion não tem quase nada, o hit é uma comédia em curta-metragem que ele já assistiu milhares de vezes.

Os tempos mudaram e também o papel do operador cinematográfico: "Antes, com o sistema carrossel, ser operador era um pouco complicado, tinha que revisar o filme todo na mão antes de passar, ver como estavam as emendas, montar a máquina com várias peças, ter muita atenção para não estragar o filme e ficar atento ao carvão, que jogava a luz pra tela, porque se encostasse um no outro, escurecia tudo", explica Walsion, jurando que nunca estragou sequer um único filme. O operador não podia sair da sala também porque, "qualquer coisa podia incendiar a fita". Hoje em dia, as máquinas ficaram mais sofisticadas e já nem exigem mais a presença desse profissional.

Cinéfilo exigente

Quem freqüentou os cinemas em Salvador nos últimos 38 anos certamente já cruzou com Walsion em alguma das 13 salas de exibição onde ele trabalhou, primeiro na Rede Cap e depois na Orient Filmes, onde está até hoje, no Cine Tamoio. Ou em corredores de prédios ou hospitais, trabalhando como vigia, zelador e servente: "Sempre tive três empregos ao mesmo tempo, só dormia em casa três dias na semana", conta ele, que tem oito filhos e quatro netos. Sobre os estudos, explica que "só fui até a quinta série, porque a matemática pegou", mas tem muita vontade de aprender inglês: "Acho uma língua bonita". De vez em quando até mandava vir de São Paulo uns livros de bolso "de inglês, hipnotismo e mágica".

Atores e diretores não são o forte de Walsion, que dedica atenção especial ao roteiro e som dos filmes, não gosta de TV e nunca freqüenta outros cinemas além daquele onde trabalha. Também nunca foi a um desses "cinemas novos", por falta de tempo, mas já ouviu falar que é coisa de primeiro mundo. Depois de tantos anos e de mais de cinco mil filmes assistidos, ele afirma sem falsa modéstia: "Eu sei quando um filme é bom". E tem sua própria definição para a sedução que os filmes exercem: "Cinema ensina muito, coisas boas e ruins". Por isso mesmo tem o cuidado de não assistir a qualquer coisa: "Tem filme que eu projetei e não sei nem uma cena, eu só olho para a tela na hora de projetar e nem presto atenção", confessando que é mesmo um cinéfilo exigente.

Fonte: Correio da Bahia